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Meditação para dormir

Praticantes e estudiosos da meditação destacam benefícios da prática milenar

A palavra “meditação” e sua tradução em inglês, “meditation”, chegaram ao nível mais alto de buscas no Google em abril deste ano. Os dados são da ferramenta Google Trends, que monitora as pesquisas feitas no site desde 2004. Em meio a uma pandemia, não é de se estranhar o aumento do interesse pela prática milenar, que já teve sua eficácia comprovada na redução de estresse e ansiedade.

Em um contexto diferente, o biólogo e neurocientista Bruno Pitanga, 36, conheceu a meditação há 19 anos, quando se preparava para a competição de natação Travessia Mar Grande-Salvador. “Me trazia paz antes da prova”, lembra.

Hoje, quando sente alguma dor ou tensão, seu remédio é parar, ouvir música e se tranquilizar. Prática que classifica como relaxamento. “Apenas isso já traz muitos benefícios para o corpo”. Já a meditação, seria “uma técnica de autoconhecimento, que faz com que você seja um espectador de si mesmo, dos seus medos, demandas, emoções”. Os conceitos, diz, costumam ser confundidos e até vendidos como iguais.

Para quem está começando e deseja atingir o nível mais profundo, recomenda que faça atividade com a supervisão de alguém mais experiente. Nas sessões que oferece, com duração de 4h, ensina a neuromeditação, uma variação da prática assinada por ele, que une sua experiência pessoal e ciência.

“Na meditação, o cérebro expressa seu DEUS interno”. DEUS assim, em letras maiúsculas, pois a palavrinha não se refere à religião, mas é um acrônimo das substâncias liberadas durante a prática: Dopamina, neurotransmissor associado à sensação de leveza; Endorfina, hormônio do prazer; Ubiquinona, coenzima que ajuda no vigor e motivação; e Serotonina, neurotransmissor relacionado à felicidade.

Plena quietude

O objetivo da prática da neuromeditação é saber lidar com sentimentos decorrentes de emoções naturais, como o medo. Segundo diz Bruno, o medo pode se transformar em ansiedade, mas também em determinação. Para canalizá-lo positivamente, aconselha a meditação alinhada a um acompanhamento psicólogo.

Depois de uma primeira sessão com ele, que custa R$ 80, a coletiva, e cerca de R$ 140, a individual, já é possível replicar o processo de forma independente. Para os que desejam se especializar, ele repassa seu conhecimento como professor e coordenador de uma pós-graduação em práticas integrativas.

Nesse trabalho, encontrou o que não viu na sua formação pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), que considera “altamente materialista e cartesiana”.

Enquanto a academia brasileira se familiariza com o tema, o cenário é diferente nos Estados Unidos. Foi lá, na Universidade de Massachusetts, que o médico Jon Kabat-Zinn sistematizou a mindfulness (em português, “atenção plena”) há 40 anos. A técnica, que cultiva o foco intencional no momento presente, é uma adaptação ocidental, científica e laica das tradicionais meditações budistas e da yoga.

Jon Kabat-Zinn criou um programa de formação de oito semanas conhecido como Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena (MBSR, em inglês) como alternativa ao tratamento de doenças que passavam por diferentes especialidades médicas, sem resultado.

Potencialidades e limitações 

Adepta da mindfulness em sua clínica de desenvolvimento infantil há sete anos, a psicóloga Mariana Paz, 38, faz uma extensa lista dos seus benefícios: “Desperta curiosidade em relação a si e ao mundo através da autopercepção sobre os próprios sentimentos, pensamentos e emoções. Ajuda a criança a entender suas potencialidades e limitações e estar consciente das dificuldades do outro. Estudos também mostram diminuição da ansiedade e aumento do foco”.

Essas habilidades podem ser trabalhadas nas sessões terapêuticas individuais, mas Mariana recomenda práticas coletivas, onde as crianças partilham experiências, como no curso que oferece por R$ 600.

A ideia surgiu para sanar pressões da “infância contemporânea”. Com agendas cheias e pouco tempo para si, as crianças têm desenvolvido mais ansiedade, por exemplo. 

Ciente, porém, de que essa infância é mais recorrente nas classes econômicas mais altas, Mariana defende que o método se adequa às mais diversas realidades. “Nos contextos específicos de cada família, que envolvem questões sociais, financeiras ou até de violência, mindfulness pode ajudar as crianças a lidar com tudo isso”. 

Para começar a praticar em casa com os filhos, não é preciso se prender a práticas formais. Está liberado usar imaginação e propor brincadeiras. Uma ideia é orientar a criança a contornar a própria mão em um papel. Quando o lápis estiver subindo pelos dedos, peça que ela puxe o ar. Quando o lápis descer, é hora de expirar. No site da clínica Mariana Paz estão disponíveis áudios para sessões completas.

Pesquisadora da mindfulness, a psicóloga e neurocientista Andrea Ruf, 48, diz que a prática é “ser e estar por inteiro, e não pela metade, em qualquer ação humana, seja comendo, andando, cozinhando… A própria vida pode se tornar um eterno porvir meditativo quando a mente, entenda-se corpo, cérebro e coração, encontra quietude necessária para não se apegar ao passado nem antecipar o futuro”.

Soteropolitana, ela estuda o tema na Universidade de Massachusetts, aquela em que Jon Kabat-Zinn inaugurou o MBSR, programa em que, por sua vez, se formou instrutora em 2018.

No local, participa de pesquisas sobre quais circuitos neurais são ativados e desativados com as diferentes práticas de mindfulness e suas possíveis mudanças comportamentais. O acompanhamento da atividade cerebral é feito através de eletrodos usados na cabeça pelos participantes.

Além da pesquisa, Andrea instrui brasileiras imigrantes sobre o tema através de parcerias com ONGs locais. “Elas vêm para cá para trabalhar duro. Com a pandemia, a ansiedade aumentou. Quem fazia limpeza, jardinagem, sem contrato fixo, perdeu essa possibilidade”. Nesse período, tem realizado sessões práticas online gratuitas. Toda quarta-feira, divulga o link da reunião via Instagram e Facebook. 

A democratização do acesso à atividade, aliás, é uma preocupação constante. “No Brasil, há uma associação ao místico, que fica restrito a uma determinada classe social. Na Bahia, tem a coisa do sagrado, da ritualização. Aqui é mais popularizado.  Gosto desse aspecto da cultura americana”. 

Campanha

Sob a perspectiva mais esotérica, o servidor público Raimundo dos Santos conheceu a meditação no centro Brahma Kumaris há 30 anos. “É a sintonia com a fonte de energia mais profunda do seu ser, do seu sagrado, seu espírito”, diz. O que aprendeu lá através da raja yog a expandiu com a agni yoga, que é considerada a síntese dos ensinamentos sagrados anteriores.

Nesta semana, o Instituto Roerich, fundado e presidido por ele, lançou uma campanha de meditação pela paz. A ideia é criar uma corrente diária com esse pensamento das 18h às 18h15 para “tirar as nuvens escuras do espaço mental que circunda a Terra”.

Foi para disseminar a paz que fundou o instituto em 1997. Desde então, já promoveu ações culturais e educacionais em mais de 10 bairros vulneráveis de Salvador. Nesses locais, nem sempre consegue promover a meditação. “Quando a pessoa está em grande vulnerabilidade, o primeiro passo é dar um prato de comida”. Apesar disso, segue acreditando nesse caminho. “A violência nasce na mente do ser humano. Antes de colocar uma arma na cintura ou na mochila, ele coloca no pensamento“.

Quem também trabalha para diminuição da violência é a organização internacional Arte de Viver, fundada em 1981 pelo líder humanitário e espiritual indiano Sri Sri Ravi Shankar.

Em 2008, 10 anos depois da chegada ao Brasil, a ONG lançou o programa Prison Smart no Conjunto Penal Feminino de Salvador. Nas aulas, educandos e agentes aprendem a técnica de respiração Sudarshan Kriya, criada pela organização para ajudar no manejo do estresse e da ansiedade. “É um processo de autodesenvolvimento, que cria profunda paz interior, felicidade e bem-estar”, diz a instrutora Carolina Gordilho, 24.

Na Bahia, mais de 500 pessoas participaram do projeto. Desde 2017, passaram a oferecer as aulas também para PMs de Salvador e região metropolitana. Até agora, foram 2.500 atendidos. O método é o mesmo dos cursos fixos da ONG, mantidos por voluntariado. Na pandemia, todos estão disponíveis no site, incluindo o Aliviarte, gratuito para profissionais de saúde.

Fonte: http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/2127050-praticantes-e-estudiosos-da-meditacao-destacam-beneficios-da-pratica-milenar

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